Cidade, Habitus e Cotidiano Familiar

Por Jovanka Baracuhy Cavalcanti Scocuglia ( Professora Doutora do Departamento de Arquitetura e Urbanismo, professora dos Programas de Pós-Graduação de Arquitetura e Urbanismo e de Sociologia da Universidade Federal da Paraíba (PPGAU, PPGS/UFPB) e Coordenadora do Leccur).

O século XX produziu profundas transformações na maneira de ser, de pensar e de viver das pessoas, alterando, consequentemente, o espaço por elas construído. O conceito de metrópole tornou-se corriqueiro, modificando o sentido da cidade que se tinha até então. Como consequência, surgiu a discussão sobre a chamada “crise da cidade”, até cidades ditas de “porte médio” como João Pessoa não ficaram imunes às questões de segurança, nem aos assédios do mercado de consumo de massa. Além disto, observa-se que este fim de século vive em profundidade a crise brutal do indivíduo: paradigmas estabelecidos são revistos, destruindo “antigas certezas”, quer do ponto de vista da ciência e da arte, da política ou da religião.

Se a cidade é mesmo “a coisa humana por excelência” (Lévi-Strauss apud Rossi, 1966:93), conceito que perpassa este texto, é possível perceber o fio condutor desta crise que atravessa as cidades e deixam perplexos tanto os usuários quanto os especialistas.

As rápidas transformações nas categorias de espaço e de tempo na contemporaneidade exigem reflexões específicas quanto à forma como os indivíduos simbolicamente representam e assimilam estas alterações articulando a vida cotidiana e a sua inserção em diversas redes de sociabilidade. O desenvolvimento das tecnologias de produção, de comunicação e de informação fez criar simultaneidades temporais entre espaços muito distantes. Tal fato influenciou tanto ao nível da prática social quanto ao nível das experiências pessoais. Assim, pensar as representações sociais no espaço vem adquirindo cada vez mais importância analítica. Os conceitos com que representamos a realidade e que constituem as ciências sociais e as trajetórias pessoais etc. – tem uma contextura espacial, física e simbólica que pode vir a ser elemento fundamental para a compreensão das relações sociais que acontecem em cada um destes conceitos e para encontrarmos um ou vários caminhos para os principais males da sociedade atual como a apatia política e o declínio da vida pública, uma vez que as pessoas só podem ser socializáveis quando possuem alguma reserva ou resguardo umas das outras. Desse modo, é importante compreender-se tanto a geografia pública quanto à privada para restituir-se a interação social eficaz.

Este livro discute as relações entre o cotidiano familiar e o espaço privado da habitação em um grupo de classe média da cidade de João Pessoa – PB, e suas representações acerca das relações sociais. Parte-se da premissa de que o espaço habitado e as relações no âmbito familiar, bem como o relacionamento desse grupo familiar com os vizinhos e parentes, constituem-se em práticas sociais importantes para desvendar-se muitas das representações, dos valores e dos aspectos relevantes da estrutura e organização social nos espaços urbanos de sociedades complexas. A elaboração deste trabalho começou na dissertação de mestrado em Ciências Sociais/ CCHLA/ UFPB, defendida em agosto de 1993. Foi posteriormente, apresentado no III Seminário de História da Cidade e do Urbanismo, na UFSCAR-USP e no Encontro Norte – Nordeste de Ciências Sociais, em João Pessoa.

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Imagens da Cidade: patrimonialização, cenários e práticas sociais

Por Jovanka Baracuhy Cavalcanti Scocuglia ( Professora Doutora do Departamento de Arquitetura e Urbanismo, professora dos Programas de Pós-Graduação de Arquitetura e Urbanismo e de Sociologia da Universidade Federal da Paraíba (PPGAU, PPGS/UFPB) e Coordenadora do Leccur).

Para observarmos as cidades contemporâneas e seus centros antigos, percebendo as dinâmicas que as movem, importa não só os contextos urbanos de organização espacial e as relações sociais que induzem processos específicos, mas, também, as formas como as cidades reconstroem as suas imagens e os seus patrimônios, acionando-os como recursos próprios e configurando elementos de afirmação na economia e na comunicação globalizadas. Nessa direção, o vasto leque de visões que um centro antigo pode suscitar a partir das suas múltiplas características correspondem às imagens da cidade. Todas as imagens traduzem modos de ver e estes são decorrentes tanto daquilo que é visto quanto de quem vê. Cada parte da cidade pode difundir uma multiplicidade de imagens, reais ou imaginárias, efêmeras ou duradouras, de consenso ou de conflitos. É a pluralidade de imagens que, ao originar práticas e representações, sempre desigualmente partilhadas pelos grupos sociais, delineia os contornos das identidades de objetos e espaços urbanos. Algumas destas práticas e representações, mais duradouras ou midiáticas, se revelam mais operantes e outras, mais fugazes ou menos abrangentes, não são tão visíveis enquanto referências identitárias.

Estes são alguns pontos problematizados neste livro e discutidos no âmbito dos trabalhos apresentados.