DE VOLTA A CIDADE – A GENTRIFICAÇÃO GENERALIZADA: DE UMA ANOMALIA LOCAL À “REGENERAÇÃO” URBANA COMO ESTRATÉGIA GLOBAL

SMITH, Neil. A gentrificação generalizada: de uma anomalia local à “regeneração” urbana como estratégia urbana global. In: Bidou-Zachariasen, C. (ed.), De volta à cidade. Dos processos de gentrificação às políticas de « revitalização » dos centros urbanos. São Paulo: Annablume, 2006.

Um novo urbanismo ou uma nova forma urbana marcada pelo processo de gentrificação emerge no início dos anos setenta. Comenta-se no texto um trecho em que Ruth Glass aponta uma passagem simbólica sofrida pelos bairros londrinos, refutando-se às invasões realizadas pela nova “gentry urbana”, ou seja, as famílias de classe média nos espaços do bairro operário.

 A idéia de “renascimento urbano” era a palavra de ordem para o resgate dos bairros centrais que se encontravam degradados e ocupados pelas classes populares e imigrantes as quais não tinham um sentimento de pertinência com o local. Smith destaca a diferença do significado da renovação urbana do pós-guerra que “… encorajou a gentrificação no mercado privado…” (Smith in Bidou-Zachariasen, 2006, p.61) da que emerge neste momento junto à crescente privatização de terrenos nos bairro centrais e ao aumento do mercado de habitação.

Avaliando o caso britânico, a partir de Glass e segundo o autor, a gentrificação concerne em “… uma curiosidade marginal do mercado residencial de Islington…” (Smith in Bidou-Zachariasen, 2006, p.61) estimulado por iniciativas de classes médias mais evoluídas que não se restringiram a ocupar os bairros centrais por conta das classes populares que ali estavam. Neste momento o ator central da gentrificação para Glass era a classe média ou média alta passando num momento seguinte para o Estado e às empresas ou ainda para as parcerias público-privadas.

“O processo de gentrificação evolui rapidamente em importância e em diversidade, a ponto de fazer parecer pitoresco os simples projetosde reabilitação residencial, verdadeiros paradigmas do processo ocorrido nos anos sessenta e setenta, não somente na paisagem urbana como na literatura sobre teoria urbana.” (Smith in Bidou-Zachariasen, 2006, p.62)

É necessário enfatizar como a gentrificação, iniciada como um processo particular e marginalizado, evoluiu ao ponto de se transformar em um balizador do urbanismo contemporâneo. De qualquer forma Smith nos elucida que qualquer que seja a forma como a gentrificação é tratada, ela implicará sempre no deslocamento dos moradores da camada popular, apresentando um caráter classista e por que não dizer segregador, referindo-se também a uma “… mudança social e à paisagem cultural da cidade associada a uma geografia econômica em plena mudança.” (Smith in Bidou-Zachariasen, 2006, p.63)

O caso de Nova Iorque é tratado por Smith como um exemplo bastante singular por apresentar três fases do processo de gentrificação se mostrando como uma potente marca da forma urbana.

A primeira fase precede a crise financeira e fiscal na década de 70 e recebe a denominação de gentrificação esporádica. Assim como Londres, destaca o autor, a primeira fase ocorreu por parcelas e de forma isolada, ou seja, esporádica. As reabilitações das construções que estavam degradadas já haviam sido realizadas ao longo dos tempos anteriores o que ia permitindo a chegada de um contingente de habitantes de classe média e média alta. Nesta fase, a gentrificação é um processo esporádico e de grandeza restrita, pois não havia investimentos importantes por partes de instituições financeiras.

A segunda fase compreende o fim dos anos setenta e início dos anos oitenta e marca a consolidação do processo de gentrificação. Smith explana a teoria da renda diferencial na qual se explica as causas originais da gentrificação para aquele momento pós-crise econômica.

 “… o investimento nas áreas periurbanas em detrimento da região central, dominante no século XX, criou condições espaciais de reinvestimentos sobre locais específicos do centro, tomando a forma de gentrificação.” (Smith in Bidou-Zachariasen, 2006, p.64)

Com a onda de desinvestimento nos centros ocorreu uma queda nos preços de terrenos e edifícios, o que influenciou uma crescente venda daqueles espaços. No fim dos anos setenta, o capital aflora para aquela área e os investimentos recomeçam atraindo parcerias públicas e privadas e principalmente, novos programas de financiamento e reabilitação de habitações. Inversamente à gentrificação eclipsada da primeira fase, a segunda apresenta-se de forma mais metódica, pois consolidou a gentrificação como um elemento de reestruturação mais amplo para a cidade, desenvolvendo-se como um “componente residencial específico de uma mais ampla reformulação, econômica, social e política do espaço urbano.” (Smith in Bidou-Zachariasen, 2006, p.69)

A terceira fase se caracteriza pelo renascimento econômico tardio da cidade entre 1994 e 1996 e se caracteriza pela gentrificação generalizada. Entre a segunda e terceira fase a gentrificação sofre uma frenagem severa, principalmente a exemplo do mercado imobiliário aquecido na fase anterior. Os valores baixam e as construções são reduzidas, uma onda de declínio assola os investidores e consequentemente estagna momentaneamente o processo de gentrificação. Entre 1994 e 1996, a gentrificação começa a ser retomada e se generaliza em todo o centro da cidade. Agora são mais que edifícios e habitações reformados e reabilitados, a gentrificação se manifesta nos equipamentos de serviços, comércio, lazer e cultura, produzindo paisagens e espaços urbanos que podem ser consumidos como fala Smith no trecho abaixo:

“A gentrificação produz agora paisagens urbanas que as classes médias e médias altas podem consumir… e que contribuem para a formação de identidades de classe através de um espectro de classes significativo, ainda que de maneiras muito diferenciadas.” (Smith in Bidou-Zachariasen, 2006, p.73)

Segundo o autor o caso de Nova Iorque demonstra uma evolução do processo de gentrificação que emerge de uma anomalia local para uma estratégia urbana articulada.  Estes processos ocorridos nos primeiros anos do século XXI são mais perceptíveis nos países do velho mundo e a sua generalização pode ser melhor compreendida através de cinco características interligadas que são citadas por Smith como: “o novo papel do Estado; a penetração do capital; a dispersão geográfica; e a generalização da gentrificação setorial, já evocada.” (Smith in Bidou-Zachariasen, 2006, p.75)

O papel do Estado sofreu grandes mudanças no decorrer do processo, tendo sua significativa atuação nos anos oitenta sendo substituída nos anos noventa pela clara participação de parcerias de capitais privados e políticas locais. Houve também o que chamamos de capital globalizado, proveniente de fontes de investimentos diversificadas e que se configura como fator marcante da última fase da gentrificação. Os movimentos anti-gentrificação, movimentos urbanos generalizados, são apresentados por Smith como característicos da segunda fase da gentrificação. A difusão da gentrificação para além das áreas centrais caracteriza a terceira fase e permite se estender para construções antigas que estão ainda intactas e distritos mais afastados. É marcante na última fase a “combinação de poderes e práticas implementadas com uma ambição muito mais explícita de gentrificar a cidade.” (Smith in Bidou-Zachariasen, 2006, p.79)

 O termo regeneração urbana surge “como representante de uma estratégia central na competição global entre as diferentes aglomerações urbanas” (Smith in Bidou-Zachariasen, 2006, p.85) e não para representar a nova fase da gentrificação como se pode presumir. Smith sobressalta nesses processos de regeneração urbana o cuidado sobre a questão da escala de atuação dos projetos e alerta um tratamento de categoria de estratégia de planejamento para a gentrificação.


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