Ponto de Cem Réis: permanências e mutações

O “Ponto de Cem Réis: permanências e mutações” é um documentário que tem como cenário a Praça Vidal de Negreiros, mais conhecida como Ponto de Cem Réis, e mostra como esse espaço se transformou ao longo do tempo, devido as intervenções físicas ocorridas, refletindo assim, na forma de apropriação dos seus usuários.

O documentário abarca relatos dos mais diversos usuários da praça, desde os mais antigos até os mais recentes, de como eles veem, entendem e vivem a praça (atualmente) e como tantas intervenções afetam suas vidas enquanto transeuntes da mesma. Em seguida, foi possível traçar, de modo articulado, uma linha do tempo mostrando suas transformações, onde fez-se necessário a interligação de fotos antigas e impressões pessoais dos entrevistados.

O Ponto de Cem Réis é um uma praça localizada no Centro de João Pessoa – PB, que teve seu cenário modificado diversas vezes, seja por “necessidades urbanísticas” ou por intervenções políticas. Apesar dessas intervenções, a praça hoje não deixou de se configurar como um espaço vivo, pois continua interagindo pessoas, situações e acontecimentos do dia-a-dia.

Essas transformações que ocorreram em sua configuração física concentram fatores que interferem direta ou indiretamente no comportamento dos usuários. Interferência essa que pode ser entendida de diferentes maneiras, pois para Evaldo Coutinho, ela implica uma “visão de mundo”, incluída no campo da estética; já para Hillier ela implica “formas de solidariedade”, ou sistemas de poder (HOLANDA, 2002). Dessa forma é questionável o nível de benefício que essas mudanças trouxeram para seus usuários.

A questão é que a praça ainda confere valores culturais e sociais, apesar das diferentes opiniões, caracterizando vitalidade ao espaço público, e, consequentemente, um alto grau de urbanidade, uma vez que a presença da população no local é intensa nos mais variados horários do dia e na prática de diversos tipos de atividades.

A partir de entrevistas e conversas informais com alguns usuários, foi possível identificar as diferentes formas de apropriação do espaço, em seus mais variados comportamentos espaciais: em que lugar elas se encontram, em que horário, como, quando, fazem o quê.

Com o documentário, ficou clara a inter-relação entre O Ponto de Cem Réis e seus usuários, através de uma lógica espacial de interdependência, onde a praça precisa de pessoas para se permanecer viva, e as pessoas precisam da praça, como espaço de integração social, lazer e circulação. Contudo, é questionável até quando ela vai continuar sofrendo transformações em sua estrutura física, pois apesar de seu alto grau de urbanidade, sua história vai ficando relatada apenas em livros e na memória dos que dela recordam.

 

A ORIGEM DO PONTO DE CEM RÉIS

O Ponto de Cem Réis tem se configurado como espaço público de convívio desde sua origem, quando era apenas um ponto de bondes, até os dias atuais. Antes de se tornar uma praça e combinar as funções de circulação e convívio social, a área era caracterizada pela presença da Igreja do Rosário dos Pretos, onde em sua frente corriam os trilhos dos bondes elétricos instalados na cidade, em 1914.

Visando uma melhor utilização da área central da cidade, com a “modernização” da época, através dos bondes elétricos, no início da década de 1920, iniciou-se a primeira intervenção no espaço, tendo como resultado a demolição da Igreja do Rosário dos Pretos, dando lugar ao nascimento de um logradouro. Na figura 2, que ilustra a praça sendo construída em maio de 1923, é possível ver à direita a construção do pavilhão de estilo eclético. À esquerda da foto está o Palacete do Barão de Maraú, que em 1937 foi transformado no Parahyba Palace Hotel.

Figura 1: A Construção da praça em maio de 1923. Fonte: centrohistoricojp.blogspot.com/2008/01/ponto-de-cem-ris.html

Segundo o Jornal União da época, além da demolição da igreja – templo barroco de XVII, outras edificações perimetrais foram desapropriadas como o Juízo Federal, o Cinema-Morse, umas doze taperas e o templo do Rozario, pesada construção barroca do séc. XVII (SARMENTO et al, 2010).

Esse projeto de urbanização foi realizado pelo então prefeito da época Walfredo Guedes Pereira, que justificou tais demolições para a interligação das atuais denominações, ruas Duque de Caxias, Visconde de Pelotas e Guedes Pereira, visando uma maior fluidez da circulação de pessoas e automóveis, porém não foi levado em consideração a importância histórica das edificações demolidas.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Apesar da versão atual da Praça Vidal de Negreiros, o eterno Ponto de Cem Réis, não ser tão convidativa à sociabilidade como muitos desejavam, a idéia de um espaço público vivido e reconhecido como coração da cidade, palco dos encontros, das conversas e das manifestações populares, e detentor de boa parte da história da cidade de João Pessoa permanece com o passar do tempo e dentre tantas intervenções sofridas, mantendo e, porque não dizer, fortalecendo a urbanidade do local.

Assim, como nos ensina Frederico de Holanda (2002), os espaços não devem ser tidos como “coisas”. Eles devem ser entendidos como “uma certa família de relações com as coisas, mais precisamente, de certas relações do homem com o espaço”. Por esse motivo, tipos de espaços como O Ponto de Cem Réis, onde a população pessoense estabelece variados níveis de relações, não devem ser discriminados. Devem ser apropriados e vividos, fato solidificado a partir da tão polemizada reforma do ano de 2009.

CRÉDITO

Departamento de Arquitetura e Urbanismo – UFPB

Disciplina: Análise do Espaço Urbano

Por Camila Coelho Silva (Membro do Leccur) e Marjorie Maria de Abreu Gomes

Orientação: Jovanka Baracuhy Cavalcanti Scocuglia

 

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Analisando e vivenciando o espaço urbano (Continuação)

Os ambientes urbanos podem ser analisados e vivenciados de diferentes formas e com intensidades variadas. Apresentamos aqui  outros 2 documentários desenvolvidos com alunos do curso de Arquitetura e Urbanismo da UFPB  nas quais procuramos analisar trechos urbanos (praças, ruas, calçadas, mercados públicos, terminais de integração, entre outros) acentuando a relação entre usuários e ambiente, corpo e cidade e identificando os conflitos relativos especificamente aos usos e apropriações de espaços urbanos contemporâneos. Foram utilizadas diversas ferramentas de pesquisa e apresentação dos resultados. Damos destaque aos resultados apresentados em forma de documentários, vídeos produzidos  pelos próprios alunos com imagens e informações coletadas por meio de observações em campo, depoimentos de usuários, técnicos e responsáveis por projetos e intervenções urbanas, pesquisas documentais em arquivos públicos e privados e caminhadas, passeios aleatórios, deambulações pela cidade com o objetivo de desenvolver formas de aproximação dos ambientes urbanos e de metodologias alternativas de análise dos espaços na cidade contemporânea.

PARQUE SOLÓN DE LUCENA

Localizado na cidade de João Pessoa – PB, O Parque Sólon de Lucena é um dos principais cartões postais da capital paraibana sendo caracterizado por uma forte identidade espacial resultante dos elementos estruturadores do espaço, bem como da diversidade de funções que o parque possui. As transformações ocorridas ao longo dos tempos alteraram significativamente a função do espaço, onde inicialmente estava inserido em um contexto urbano residencial e, ao passar das décadas, foi se consolidando o potencial comercial e viário. A mudança no uso do solo dos bairros adjacentes ao parque bem como as políticas públicas aplicadas à cidade nas décadas de 1930 e 1940 alterou significativamente a forma como os usuários passaram a utilizar o espaço. Tais mudanças implicam na diversidade de funções que a “Lagoa” possui: como patrimônio histórico e natural, cartão postal ou elemento de identidade da cidade, centro de comércio, lazer, e como ponto nodal de convergência viária, atraindo, assim, milhares de pessoas diariamente, o que confere vida espacial, vida social e um alto grau de urbanidade, apesar das problemáticas diagnosticadas. (Produzido por: Tamilla Rênelly Rodrigues e Thaise de Lourdes Batista dos Santos; Orientação: Jovanka Baracuhy Cavalcanti Scocuglia).

A CALÇADINHA DO CABO BRANCO

A orla marítima de João Pessoa, principalmente na praia do Cabo Branco recebe iniciativas e tratamentos que visam estimular a prática de exercícios físicos, como a caminhada, o ciclismo e a patinação. Ações como o impedimento do tráfego de veículos automotores durante o começo da manhã e mais recentemente a implantação da ciclovia em toda a extensão do Cabo Branco são grandes atrativos que propiciam um espaço convidativo a contemplação e uso da praia pela população.

Este documentário visa analisar como as pessoas se apropriam do espaço da calçadinha da Av. Cabo Branco para realizar diferentes modalidades de atividade física em horários diferentes do dia. Durante a realização do trabalho, buscamos compreender como alguns mecanismos de projeto urbanístico que foram implantados no local influenciam os padrões de utilização do espaço público do passeio e verificar se havia conflitos entre os fluxos de praticantes de modalidades diferentes, ressaltando as divergências entre pedestres, ciclistas e patinadores, e quais seriam as possíveis causas de tais conflitos. (Produzido por: Mateus Massa e Rebeca Ramalho; Orientação: Jovanka Baracuhy Cavalcanti Scocuglia).

Analisando e vivenciando o espaço urbano

Os ambientes urbanos podem ser analisados e vivenciados de diferentes formas e com intensidades variadas. Apresentamos aqui algumas experiências desenvolvidas com alunos do curso de Arquitetura e Urbanismo da UFPB  nas quais procuramos analisar trechos urbanos (praças, ruas, calçadas, mercados públicos, terminais de integração, entre outros) acentuando a relação entre usuários e ambiente, corpo e cidade e identificando os conflitos relativos especificamente aos usos e apropriações de espaços urbanos contemporâneos. Foram utilizadas diversas ferramentas de pesquisa e apresentação dos resultados. Damos destaque aos resultados apresentados em forma de documentários, vídeos produzidos  pelos próprios alunos com imagens e informações coletadas por meio de observações em campo, depoimentos de usuários, técnicos e responsáveis por projetos e intervenções urbanas, pesquisas documentais em arquivos públicos e privados e caminhadas, passeios aleatórios, deambulações pela cidade com o objetivo de desenvolver formas de aproximação dos ambientes urbanos e de metodologias alternativas de análise dos espaços na cidade contemporânea.

Este documentário pretendeu analisar a transformação da Praça Rio Branco, espaço que outrora fora símbolo do poder administrativo da cidade de João Pessoa, e que teve seu uso completamente desviado, transformando-se em um estacionamento, e que através da iniciativa do poder público, por meio de uma revitalização proposta em parceria pela Prefeitura Municipal e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN, retomou sua identidade de espaço de convívio social, sendo este espaço imediatamente aceito e principalmente usufruído pela população, reintegrando-se à vida social da cidade. (Produzido por: Juliane Gasparin e Milena de Sá Braga; Orientação: Jovanka Baracuhy Cavalcanti Scocuglia).

O “Ponto de Cem Réis: permanências e mutações” é um documentário que tem como cenário a Praça Vidal de Negreiros (mais conhecida como Ponto de Cem Réis), localizada no Centro de João Pessoa, PB, e mostra como esse espaço se transformou ao longo do tempo devido as intervenções físicas ocorridas, refletindo assim, na forma de apropriação dos seus usuários. O documentário abarca além do histórico das intervenções sofridas pela praça, relatos dos seus mais diversos usuários, desde os mais antigos até os mais recentes, de como eles veem, entendem e vivem a praça e como tais intervenções afetaram e afetam suas vidas. Notou-se que a praça ainda confere valores culturais e sociais, apesar das diferentes opiniões, pois a participação urbana em diversos horários do dia confere ao lugar vitalidade urbana. Apesar da versão atual da Praça Vidal de Negreiros, o eterno Ponto de Cem Réis, não ser tão convidativa à sociabilidade como muitos desejavam, a idéia de um espaço público vivido e reconhecido como coração da cidade, palco dos encontros, das conversas e das manifestações populares, e detentor de boa parte da história da cidade de João Pessoa permanece com o passar do tempo e dentre tantas intervenções sofridas, mantendo e, porque não dizer, fortalecendo a urbanidade do local. (Produzido por Camila Coelho e Marjorie Maria Abreu Gomes; Orientação: Jovanka Baracuhy Cavalcanti Scocuglia).

Este documentário relata a análise da experiência de ocupação e formas de utilização dos espaços do Mercado Central, situado no centro da cidade de João Pessoa-PB. Diante da falta de gerência da Administração Pública e da efetividade dos respectivos programas governamentais ao longo dos anos, a infraestrutura do “Mercado Central” sofreu vicissitudes de várias naturezas (ambiental, artificial, dentre outras).
Daí infere-se o estágio de degradação e ocupação indevida do mercado em tela. Em razão da situação supracitada, a Administração Pública Municipal, em 2006, solicitou um projeto de reforma do mesmo em parceria com a Universidade Federal da Paraíba. Hodiernamente, o projeto continua em execução, já tendo sido realizadas: a construção do novo galpão das frutas; o galpão de industrializados; e o galpão de cereais. No momento atual, o galpão das carnes se encontra em reforma.
A análise do espaço se dá de acordo com as perspectivas e anseios dos usuários, trabalhadores e do próprio arquiteto em relação aos resultados da reforma, de acordo com a situação em que foi encontrado o mercado, as propostas do arquiteto e a visão dos usuários com suas intervenções. (Produzido por: Aline de Souza Carolino e Ítalo Pereira Fernandes;Orientação: Jovanka Baracuhy Cavalcanti Scocuglia)