A pacificação da cidade. O caso dos espaços públicos do grand ensemble Les Minguettes, em Lyon (França).

Por Marcele Trigueiro de Araújo Morais (Professora doutora, exerce função de professora adjunto na Universidade Federal da Paraíba – UFPB; vice-coordenadora do grupo de pesquisa Cidade, Cultura Contemporânea e Urbanidade – LECCUR). Trabalho completo publicado no I ENANPARQ – Rio de Janeiro, 2010 e no SICYurb – Lisboa, 2011.

Disponível < http://conferencias.cies.iscte.pt/index.php/icyurb/sicyurb/paper/view/375 >

RESUMO – Versão em português

Identificados em diversos países da Europa com o epicentro dos problemas sociais e urbanos, os grandes conjuntos habitacionais modernistas são considerados territórios atingidos pela crise urbana e social. Associados a esta situação de crise, os espaços públicos, taxados de “sensíveis”, são os lugares onde se expressam as novas clivagens da sociedade. A partir desta constatação, esta comunicação, fundamentada em pesquisa doutoral realizada entre 2002 e 2008, trata das transformações urbanas sofridas pelos espaços públicos destes conjuntos e, mais precisamente ainda, das diretrizes de pacificação urbana sobre as quais certas operações urbanísticas parecem se fundamentar. Trata-se aqui de questionar a resposta dada pelos “fabricantes da cidade” (representantes políticos, funcionários das municipalidades, arquitetos e urbanistas autores dos projetos, etc.), em termos de ações urbanísticas, a partir do momento em que esta crise urbana é interpretada como uma “crise da coesão social”. De fato, os fabricantes concebem um estado da atividade social urbana ao qual os dispositivos técnicos devem estar adaptados: no caso da renovação urbana dos grandes conjuntos habitacionais, eles partem do diagnóstico de uma situação “anômica”, derivada do enfraquecimento da coesão social, e imaginam os espaços públicos requalificados como instrumentos capazes de contribuir com a reconstrução desta coesão. Dentro desta problemática, a constituição de um corpus voltado ao mesmo tempo para as questões de cunho urbano e social se impõe. Sendo assim, a observação das intervenções realizadas pelas políticas de renovação urbana passa por um dispositivo metodológico “intrínseco” à pesquisa, o qual consiste em uma investigação documentária, realizada no SPVRU – Serviço Política da Cidade e Renovação Urbana (Service Politique de la Ville et Renouvellement Urbain) da Grande Lyon. A observação das relações sociais em geral e, mais precisamente, das relações entre os “públicos urbanos” (essencialmente os habitantes) e os espaços públicos dos setores estudados acontece, por sua vez, através de dispositivos metodológicos “herdados” de pesquisas externas: trata-se de duas pesquisas quantitativas, desenvolvidas dentro do âmbito do Programa Europeu RESTATE e do Programa Ministerial HVU – Habitat e Vida Urbana (Habitat et Vie Urbaine). A associação destas diferentes técnicas de investigação conduz ao estabelecimento de uma série de resultados. Desta forma, percebe-se que as políticas analisadas são excessivamente centradas na transformação urbana dos espaços públicos, mas pouco voltadas para o estabelecimento das condições elementares à urbanidade, indicando que tais posturas baseiam-se em um equívoco em matéria de premissas urbanísticas e tendem a produzir espaços públicos “hiper-programados”, mas incapazes de assegurar seu papel social.

RÉSUMÉ  – versão em francês

La pacification de la ville. Le cas des espaces publics des Minguettes, à Lyon.

Repérés comme l’épicentre des problèmes sociaux et urbains, les grands ensembles périphériques d’habitat social sont présentés comme des territoires touchés par la crise urbaine. Associés à cette situation de crise, les espaces publics, jugés sensibles, deviennent les lieux où s’expriment les nouveaux clivages de la société. Partant de ce constat, cette communication porte sur les transformations urbaines dont les espaces publics des grands ensembles sont l’objet et, plus particulièrement encore, sur les directives de pacification qui semblent se dégager de certaines opérations urbanistiques. Il s’agit alors de s’intéresser à la réponse que donnent les fabricants (élus, représentants des collectivités territoriales, concepteurs, etc.), en termes d’aménagement urbain, à partir du moment où cette crise urbaine est interprétée comme crise du lien social. Les fabricants conçoivent un état de l’activité sociale auquel les dispositifs techniques se doivent d’être adaptés : dans le cadre du renouvellement urbain des grands ensembles, ils posent le diagnostic d’une situation anomique, dérivée de l’affaiblissement du lien social, et envisagent les espaces publics aménagés en tant qu’instruments pouvant permettre la restauration de ce lien. L’observation des interventions urbaines mises en œuvre dans le cadre du renouvellement urbain passe par la mise en place d’un dispositif méthodologique « intrinsèque » à notre recherche et consiste en une investigation documentaire. L’observation du rapport des publics urbains (des habitants, pour l’essentiel) à l’espace public et des relations sociales élaborées au sein des terrains identifiés est menée au travers de dispositifs méthodologiques « hérités » de recherches extérieures (programme RESTATE et programme Habitat et Vie Urbaine). L’association de ces différentes techniques d’investigation conduit à l’établissement d’un certain nombre de résultats. Ainsi, il s’avère que les politiques analysées sont excessivement centrées sur la transformation urbaine des espaces publics, mais pas assez sur l’établissement des conditions élémentaires à l’urbanité, ce qui indique que ces politiques se fondent sur une équivoque en matière de prémisses urbanistiques et tendent à produire des espaces publics sur-programmés, mais incapables d’assurer de façon optimale leur rôle social.

A insustentável leveza do patrimônio cultural: memória e marketing

Por Jovanka Baracuhy Cavalcanti Scocuglia (Coordenadora do Leccur).

Na contemporaneidade as relações sociais urbanas parecem indicar sua substituição por uma seleção de imagens e por uma arquitetura cenográfica na qual os indivíduos são meros contempladores unidimensionais, tendo por força da propaganda apenas a aparência de ser uma comunidade. Neste sentido, cultura e “revitalização” na “cidade-mercadoria” tem significado, muitas vezes, uma valorização artificial do solo urbano associada a uma ampliação do fluxo de pessoas nas áreas criadas dentro das propostas de geração de espaços públicos parciais ou semi-públicos.

Além disto, nas análises sobre os processos de mudança relativos ao patrimônio cultural, costuma-se ver como “ameaças” o desenvolvimento urbano, as indústrias culturais e o turismo, ao invés de serem considerados contextos em que os bens históricos existem e cujos recursos como televisão, rádio, CDs e vídeos às vezes são tão significativos quanto os bens tradicionais considerando-se o papel desempenhado na socialização e renovação de comportamentos.

Supõe-se, nesta mesma lógica, a possibilidade de uma memória e de patrimônios culturais “autênticos”, uma “identidade autêntica” brasileira que estaria sendo descaracterizada pela “revitalização” associada à cultura de massa, pela lógica do consumo nas atividades de entretenimento e de turismo nos centros históricos. Porém, não se pode pensar o processo de rememorização como sendo estático, “a tradição nunca é mantida integralmente” e “não existe uma identidade autêntica, mas uma pluralidade de identidades construídas por diferentes grupos sociais em diferentes momentos históricos”.

Neste artigo, discuto algumas das contradições e desigualdades que as relações sociais assumem no uso do patrimônio resultando em interações complexas entre o Estado, o setor privado e os diferentes grupos, movimentos sociais e culturais urbanos, as quais estão claramente expressas nos processos de intervenção em centros históricos desenvolvidos no Brasil nas últimas décadas.

Leia mais… http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/07.076/319 (Artigo Completo).

Percepção e memória da cidade: o Ponto de Cem Réis

Por Jovanka Baracuhy Cavalcanti Scocuglia , Carolina Chaves e Juliane Lins

As sociedades defrontam-se continuamente com novas definições e novas diretrizes para o desenvolvimento de percepções do mundo, relacionadas à busca de uma economia e de uma vida social mais justa. Hoje, evidencia-se sobremaneira a necessidade de inclusão da dimensão ambiental na educação e aqui ressaltamos, em especial, no ensino/prática da Arquitetura e do Urbanismo, apontando para a emergência do pensar a crise socioambiental.

Esta crise decorre, dentre outros aspectos, de longos anos em que a divisão disciplinar do conhecimento dificultou o reconhecimento da realidade tal como se apresenta na experiência comum. Na perspectiva interdisciplinar os objetos e assuntos são híbridos e por isto abrangem uma consideração além da condição científica disciplinar. A interdisciplinaridade é, neste sentido, uma das formas de enfrentamento destes desafios no ensino e na pesquisa. Em especial, destacamos estudos que relacionam arquitetura, urbanismo, meio ambiente, sociologia, antropologia e história.

Neste texto apresentaremos parte dos resultados de um trabalho desenvolvido sobre percepção dos usuários de uma Praça no centro histórica da cidade de João Pessoa, local de protestos políticos e concentrações dos movimentos sociais, mas também do comércio ambulante e outras atividades urbanas. Abordamos o tema sob a luz de conceitos como “legibilidade” e “morfologia urbana” dentro do processo de formação da imagem do lugar dando ênfase à leitura que os indivíduos fazem do espaço público contemporâneo, fundamentado no referencial teórico de Kevin Lynch.

Tal estudo tem por propósito compreender como as mudanças no desenho de uma área urbana – a praça Vidal de Negreiros conhecida popularmente como “Ponto de Cem Réis” – influenciaram na percepção e imagem urbanas e como isto influenciou, ou ainda influencia, o comportamento dos usuários em seu uso atual. O estudo foi encaminhado utilizando como fundamentação e roteiro o método apresentado por Kevin Lynch em seu livro A imagem da cidade (1997), trabalhando conceitos como “imaginabilidade”, “legibilidade” e “morfologia urbana”. Articulados, ainda, aos trabalhos de Vicente Del Rio em Introdução ao desenho urbano no processo de planejamento e de Gordon Cullen em especial seu conceito de visão serial, em obra intitulada The concise townspace, na qual a paisagem urbana é definida como uma série de espaços correlatos.

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Arquitetura Moderna no Nordeste 1960-70: a produção de Borsoi em João Pessoa

Influências pernambucanas e necessidade de preservação

Por Jovanka Baracuhy Cavalcanti Scocuglia , Lia Monteiro e Marieta Dantas Tavares de Melo

Residência Cassiano Ribeiro Coutinho, situada na Av. Epitácio Pessoa nº 1090, Arquiteto Gil Acácio Borsoi. Paisagismo de Burle Marx Foto Lia Tavares

A Arquitetura Moderna de João Pessoa – PB realizada entre os anos 1960-70 recebeu forte influência dos profissionais então atuantes em Recife – PE. Esta influência justifica-se tanto pela proximidade entre as duas capitais, João Pessoa está localizada a apenas 120km de Recife, como pela situação privilegiada desta última em termos econômicos e culturais dentro da região Nordeste. Neste sentido, foram utilizadas todas as adaptações climáticas, regionalistas, contando ainda com grande parte dos arquitetos da chamada “Escola Pernambucana” de Arquitetura Moderna na execução inúmeros projetos arquitetônicos para sedes de clubes, agências bancárias, residências, entre outros, na cidade de João Pessoa.

Nesta pesquisa, enfocamos, sobretudo, os elementos arquitetônicos do modernismo regional nordestino presentes nas obras de maior destaque na cidade de João Pessoa durante as décadas de 1960-70, tendo como principais representantes dessa arquitetura Acácio Gil Borsoi, Mário Glauco Di Láscio, Carlos Alberto Carneiro da Cunha, Leonardo Stuckert Filho e Liberal de Castro.

Este estudo representa um importante registro histórico pelo grau de importância dessa produção arquitetônica para a cidade de João Pessoa, mas também quando se observa o acentuado estado de degradação resultante do descaso e do abandono em que muitas dessas edificações se encontram, alvo de uma especulação imobiliária depredadora e insensível aos valores culturais de um povo e à história-memória desta cidade e até mesmo da arquitetura e cultura do país.

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