Artigo – O corpo idoso nas ruas e praças do centro de João Pessoa. Experiências urbanas no espaço público requalificado. Jovanka Baracuhy Cavalcanti Scocuglia e Marcela Dimenstein.

Artigo publicado na Revista Arquitextos Vitruvius 184.05 espaço público ano 16, set. 2015.  ISSN 1809-6298 .  Link da publicação na Revista Vitruvius

Idoso se protegendo da incidência solar direta
Foto Marcela Dimenstein


Introdução

Este artigo apresenta uma parte dos resultados da pesquisa de mestrado desenvolvida entre 2012 e 2014, intitulada “Experiências urbanas de idosos no centro de João Pessoa”, junto ao Programa de Pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal da Paraíba (PPGAU/UFPB) e aborda uma questão chave na atualidade que diz respeito à importância da experiência da alteridade na cidade.

Além de se afirmar como uma forma de resistência e crítica à ideia de empobrecimento da ação urbana e perda da corporeidade nos espaços públicos, os assuntos relacionados a essa temática vem adquirindo maior relevância uma vez que valorizam o homem ordinário (1), que caminha pela cidade, vivencia-a, atem-se aos seus caminhos, confunde-se e perde-se. Ao experimentar a cidade nos permitimos sentir seus ritmos, seus entornos, e assim, temos oportunidade de descobri-la e criar relações com ela.

 Assim também, os temas relacionados à velhice estão mais evidentes no Brasil pelo aumento do número dos idosos na sua população total. O Estatuto do Idoso (2), em vigor desde 1° de janeiro de 2004, aparece como uma consequência dessa maior relevância. Este aumento está ligado a várias questões relativas à queda da mortalidade, avanços da medicina, melhorias nas condições gerais de vida e melhorias na higiene pessoal e ambiental, dentre outras. Em 2010, 11% da população brasileira estava acima dos 60 anos e a previsão para 2020 é que esse índice aumente para 13,67%.

Em análise dos dados do município de João Pessoa, percebemos que eles acompanham a média nacional e mostram um aumento significativo da população idosa. Em 2007, a cidade apresentava cerca de 667.000 habitantes e uma população idosa de cerca de 61.000 habitantes, sendo, 9,14% de sua população acima dos 60 anos (3). Já em 2010, a cidade possuía uma população estimada em cerca de 723.000 habitantes, dentre os quais 74.700 eram idosos, sendo então, 10,3% de sua população está acima dos 60 anos de idade (4).

 Essa grande quantidade de idosos nas cidades torna pertinente uma maior atenção a este segmento social não observado com seu devido valor pelos planejadores urbanos, pelas políticas públicas e até mesmo pela sociedade. Logo, torna-se necessário estudar não só suas necessidades quanto ao uso dos espaços públicos, mas também as suas percepções e experiências nesses lugares.

Neste artigo, o interesse está focado em idosos que flanam, observam e experimentam a área central da capital paraibana, fazendo das ruas, calçadas e praças seus locais de ver e ser vistos. Objetivamos identificar como as praças e ruas existentes em um trecho recém requalificado da área central de João Pessoa se adequam ao público idoso e quais seriam as suas experiências urbanas nesses espaços. Com isso, intencionamos problematizar em que medida o espaço urbano que está sendo construído pelas atuais gestões públicas atende as necessidades do público aqui em questão e qual a qualidade urbana resultante nesses locais.

Escolhemos trabalhar com o centro devido a sua importância histórica como lugar de memória, detentor de um valor patrimonial e arquitetônico, e também por ser o principal setor comercial e de serviço da cidade, o que atrai muitas pessoas para a região. Este fato o configura como lugar de diferentes experiências da vida social e onde é possível encontrar, em sua grande maioria, personagens que ativam a cena urbana cotidiana com diversas atividades e nos mais diversos espaços. Vale ressaltar que no decorrer do século 20, o centro passou por várias transformações que aliadas à expansão da cidade e a ideia de decadência marcaram a área e, gradativamente, modificaram o seu perfil original de uso e ocupação, reduzindo significativamente os espaços residenciais, enquanto se reafirmava como lugar de comercio e serviços. Entretanto, segundo os dados coletados pelo IBGE 2010, em relação a cidade como um todo, o centro ainda detém o maior percentual de idosos, acusando 20,49% da população da cidade.

Correa (5) afirma que mesmo com as mudanças na dinâmica de uma região e nos costumes de uma população, ainda nota-se nos idosos a sensação de estranhamento e saudosismo frente a tantas alterações no espaço. Essa realidade ainda pode ser encontrada no centro de João Pessoa, local de moradia e convivência de uma população idosa que criou raízes e vínculos de trabalho, lazer e afetos nesta área.

Ao se trabalhar com idosos, partimos do princípio que são pessoas que testemunharam e construíram a história da cidade e nessa perspectiva, podem ser considerados como um dos agentes que contribuem para os estudos e pesquisas relacionados a ela. Através de relatos, narrativas e observações de diversos hábitos é possível desvendar elementos relativos a história, a cultura, a memória e afetos de um local, principalmente quando se leva em consideração os aspectos relacionados ao cotidiano, no presente e no passado.

O tema da experiência urbana é amplo e abarca diversas áreas do saber. Nessa pesquisa será abordado por uma visão arquitetônico-urbanística, levando em consideração que este campo é em si também abrangente e inclui não apenas suas construções físicas concretas, mas a forma como a cidade é percebida pelo sujeito, como ela é vivenciada. Todavia, faz interface com outras áreas do saber como a sociologia, geografia, psicologia ambiental, antropologia e com recursos metodológicos tais como fotografia, desenhos, observações de campo e entrevista semiestruturada, pois se compreende que são ferramentas importantes e contribuem de forma significativa ao campo da arquitetura e urbanismo.

Área de estudo e o seu espaço recém requalificado

O centro da cidade de João Pessoa se configura como uma área de grande concentração comercial e serviços. Também é local de shows, festas e manifestações políticas, o que lhe confere uma intensa movimentação diária de pessoas. Durante muito tempo, o centro foi o local de moradia e trabalho da alta sociedade paraibana e a arquitetura ali existente reflete os valores e significados desta época. Logo, é um local que guarda muitas memórias e desperta afetos, principalmente na população idosa, grande frequentadora para os diversos tipos de atividades.

Elegeu-se estudar os trechos das Ruas Duque de Caxias e Visconde de Pelotas, principalmente as ruas e praças que passaram por uma recente requalificação encabeçada pela Prefeitura Municipal. Contudo, durante os trabalhos de campo identificamos que alguns desses espaços atraiam uma maior quantidade de idosos do que outros. Os motivos seriam: o uso e ocupação do entorno construído das praças e ruas, a qualidade e quantidade dos dispositivos técnicos existentes nesses locais, a possibilidade de realização de atividades que subvertem e são imprevisíveis ao espaço e por fim, história dos lugares, dos costumes e das memórias que despertam. Logo, três espaços se destacaram no que diz respeito ao público idoso: Praça Vidal de Negreiros, Trecho pedestrianizado da Rua Duque de Caxias e Praça João Pessoa.

Trajeto pedestrianizado da Rua Duque de Caxias, 02 – Ponto de Cem Réis, 03 – Praça João Pessoa [Imagem retirada do Google Earth 2014 e editada pela autora]

O trajeto da Rua Duque de Caxias destinado aos pedestres existe desde a década de 1980, após o fechamento do viaduto Damásio Franca. Muito embora, antes das reformas realizadas em 2010, a rua apresentava-se na configuração destinada para carros – calçadas elevadas e via de rolamento asfaltada – além de canteiros mal conservados e bancos defeituosos. Após 2010, a rua foi nivelada com a Praça Vidal de Negreiros, recebeu pisos intertravados e sinalização tátil para os portadores de deficiência. Ganhou também nova iluminação, novos bancos de madeira e rampas acessíveis.

Esse trajeto atrai uma grande quantidade de pessoas, uma vez que seus transeuntes não são obrigados a dividir espaço com carros podendo circular com mais liberdade. As lojas, bancos e lanchonetes existentes ao longo da rua agitam ainda mais a área. A Livraria do Luiz, localizada em uma das galerias existentes na rua é um dos locais mais frequentados no centro por uma série de idosos contatados nesse trabalho.

A Praça João Pessoa se interliga com o final do trecho pedestrianizado da Rua Duque de Caxias, ponto onde o grande fluxo de pessoas diverge em diferentes direções. Percebeu-se que o Edifício da Assembleia Legislativa – existente nesse ponto de encontro – é local de trabalho de muito idosos que durante os intervalos ou final do expediente se reúnem nos bancos e calçadas da praça para conversar e descansar. A grande árvore existente nessa área cria um ambiente sombreado para as rodas de conversa, o que atrai também muitos ambulantes que aproveitam o ambiente confortável e a concentração de pessoas para vender seus produtos. As recentes obras trocaram apenas os pisos e mobiliários defeituosos, deram uma manutenção simples nos canteiros arbóreos existentes e instalaram rampas acessíveis. Os outros dispositivos não sofreram alterações.

Rua Duque de Caxias em 2013
Foto Marcela Dimenstein

Rua Duque de Caxias em 2014, apontando danos já sofridos pelo piso
Foto Marcela Dimenstein

Troca do piso e bancos defeituosos na praça João Pessoa após reforma
Foto Marcela Dimenstein

A presença dos ambulantes entre a Praça Vidal de Negreiros e a Praça João Pessoa é algo muito forte. A grande quantidade e variedade de comércio popular atrai frenético movimento de pessoas, o que, por sua vez, também acaba suscitando o aparecimento destes. Foi possível ver alguns idosos usufruindo dos ambulantes principalmente para o consumo de frutas, verduras e picolés. A noite, com o cenário movimentado pelos jogos de tabuleiro e pelas barraquinhas de churrasquinho, foi possível ver alguns idosos tomando cervejas enquanto olham os jogos, conversam e encontram os amigos.

Já a Praça Vidal de Negreiros, também conhecida como Ponto de Cem Réis, passou por uma nova reconfiguração após as reformas em 2009. A praça passou a se constituir como um amplo largo pensado para grandes concentrações e eventos. Antes de iniciadas as obras, o piso de ladrilho hidráulico estava em grande parte quebrado e os canteiros e o mobiliário estavam sem manutenção. O viaduto que cortava a praça acabava criando diferentes níveis no piso, o que impedia uma total integração do espaço. Com a reforma, o piso anterior foi trocado por lajotas de concreto, os poucos bancos existentes nas bordas da praça, agora, seguem o modelo padrão das praças da Prefeitura (em concreto, sem encosto), os postes de luz também foram modificados. Também foi criado um busto elevado de André Vidal de Negreiros e foram retiradas algumas árvores existentes, e outras foram plantadas junto aos novos bancos.

As modificações no espaço, a aridez e o predomínio do vazio dificultam a estadia ou mesmo a simples passagem das pessoas em horários de maior insolação. Por outro lado, retiraram barreiras visuais, descortinaram a paisagem e terminaram por valorizar seu entorno e evidenciar os edifícios à sua volta, com variedade de usos e de gabaritos, mas revelando junto o estado de degradação em que muitos deles se encontram.

Publicação recente (6) apresenta resultados de pesquisa acadêmica que discute as relações entre o espaço público e privado no Ponto de Cem Réis. Este, que apesar de abrigar uma série de edifícios abandonados e com usos irregulares em seus andares superiores, os seus térreos apresentam comércios e serviços bastante movimentados. Chama a atenção no entorno a presença do Paraíba Palace Hotel, datado de 1920, símbolo da alta sociedade da época e recentemente adaptado para o uso de um shopping popular. É possível ver uma grande movimentação desse lado da praça, uma vez que é um dos poucos trechos que apresenta uma cobertura contra o sol por meio de uma laje plana que percorre toda a fachada do edifício. Apesar da sombra, a carência de mobiliário urbano nessa parte da praça faz com que as pessoas permaneçam em pé, favorecendo, dessa maneira, um fluxo contínuo, de alta rotatividade e de permanência não prolongada. O café existente no térreo do Paraíba Palace destaca-se por se conformar como o único ponto propício para encontros mais prolongados, já que só ele oferece lugares para sentar. A banca de jornal existente ali também atrai muitas pessoas ávidas por uma conversa ou para ver as novidades. Ao lado da banca, os peitoris das vitrines das lojas, com profundidade e altura favoráveis para que se pudesse utiliza-los como encosto ou assento, receberam elementos pontiagudos que impedem tal uso.

As áreas de maior concentração de pessoas em intervalos de tempo mais prolongados pela manhã (caracterizando permanência e não apenas fluxo) estão na parte leste da praça, onde existem bancos sombreados por árvores frondosas. As edificações existentes em frente à praça, também de uso comercial, estão separadas pela Rua Visconde de Pelotas com grande fluxo de automóveis. Vale ressaltar a fachada ainda existente do antigo Cine Plaza, que, após reforma, passou a abrigar a Casa Pio (uso comercial).

A fachada oeste da praça apresenta diversas edificações comerciais e de serviços, com destaque para o edifício Regis, construído na década de 1970, que divide os usos de comércio e serviço. Esse lado da praça é muito movimentado, pois faz limite com a rua pedestrianizada Duque de Caxias, com ela estabelecendo continuidade de fluxos, gerando muitas atividades diante dos bancos e lojas comerciais criando um cenário muito instigante para a população idosa apreciar. Ao entardecer, ganha ainda mais vitalidade, pois os bancos existentes, até então ao sol, ficam sob a sombra projetada por essas edificações à sua frente e acabam atraindo muitas pessoas para o descanso e para jogos de tabuleiro, de maneira que, aos fluxos, somam-se permanências.

Vista panorâmica do Ponto de Cem Réis
Foto Marcela Dimenstein

A adequação do corpo idoso ao espaço

O corpo constitui-se o elo fundamental de ligação do homem com o mundo. É o veículo utilizado por nós para expressar diariamente nossas relações com outros corpos e com os lugares. Quando tratamos do corpo idoso no ambiente urbano, uma série de questões manifestam-se a respeito da sua relação com a cidade. As diferentes posturas corporais e as mudanças nas competências motoras acabam revelando novos pontos de vista dos espaços, uma vez que estes são capazes de colocar o corpo mais frágil em situações de desvantagem e reforçam suas deficiências. Logo, atividades básicas como caminhar nas ruas e se sentar nos bancos podem trazer novas percepções e experiências dos lugares, influenciando nas suas reações emocionais, sensações e identificações com a cidade.

Como exemplo, houve o caso de um participante da pesquisa que com a idade adquiriu diabetes e uma das recomendações médicas era que bebesse muita água, o que fazia com que tivesse bastante vontade de urinar. Este participante que vai a pé para as praças do centro, confessou que a ausência de banheiro público era um dos grandes problemas na sua opinião, obrigando-o a pedir a alguns comerciantes – que sabem do seu problema – que lhe deixasse usar o banheiro quando precisasse.

Motta (7) exprime que o “gestual humano” como a postura do corpo, é particularmente diferente segundo as idades e gerações. No caso dos idosos, isso é enfatizado e o comportamento corporal é demandado de fora para que se adeque ao modelo cristalizado do preconceito social. Correia (8) corrobora com Motta (9) ao falar em seu livro Cartografias do envelhecimento na contemporaneidade, que ao procurar entender o conceito de velhice, pediu para que os participantes idosos representassem a partir de gestos e comportamentos típicos as várias idades da vida. Ao se solicitar que a velhice fosse representada, eles a caracterizaram como uma fase decrépita, como se o corpo estivesse em franco estágio de degenerescência e ruína. Entretanto, os próprios participantes não se encontravam naquela condição.

Debert (10) questiona se não estamos restringindo o entendimento do envelhecer ao nos determos somente aos dados visíveis e cronológicos. Aponta que recentes estudos em diferentes culturas constataram diferentes formas de envelhecer, colocando em desuso a ideia que o envelhecimento é uma condição biológica à qual o indivíduo submete-se passivamente, visto que é um fenômeno tanto biológico quanto social/cultural e ao qual reagem com base no que adquirem ao longo da vida.

A grande quantidade de idosos na área trabalhada revelou diversas situações que foram esquecidas durante as obras de requalificação. A ausência de manutenção dos pisos, a existência de bancos sem encostos, a falta de sombreamento e as mudanças bruscas de níveis na calçada, dentre outros, são fatores que influenciam na atração de uma parcela de idosos de um local a outro. A adequação climática foi um fator decisivo para um dos participantes de 82 anos. Religiosamente pelas manhãs gosta de ficar na Livraria do Luiz, local climatizado com ar condicionado e, as vezes, após o pôr do sol se dirige ao Ponto de Cem Réis para encontrar os amigos.

As figuras 06, 07, 08 apresentam idosos identificados na área de trabalho e ilustram as possíveis dificuldades que seus corpos lhes impõem e como lidam com as condições físicas do espaço existente.

A forte incidência do sol na pele e nos olhos os obrigam a se protegerem

A forte incidência do sol na pele e nos olhos os obrigam a se protegerem
Foto Marcela Dimenstein

Muletas e bengalas são elementos auxiliares comuns dentre os idosos
Foto Marcela Dimenstein

Rogerio Leite (11) afirma que nenhuma cidade excessivamente planejada e controlada segue invariavelmente o modelo que gerou. Entendida como produto cultural, a cidade é sempre o resultado convergente de distintas influências formais e cotidianas. Entretanto, essa polissemia dos lugares é constantemente abafada nas estratégias de planejamento no espaço público.

Michel de Certeau (12) ao discutir sobre “estratégias” e “táticas” oferece formas de repensar as dissensões relativas aos usos no espaço urbano. Por “estratégias”, o autor entende como operações nos espaços capazes de produzir, mapear e impor um conjunto de práticas. As “táticas” são colocadas como “um movimento dentro do campo de visão do inimigo”, ou seja, são práticas desviantes no espaço controlado, não têm lugar próprio, por isso são móveis, manipuladoras e alteradoras do espaço.

Essa ideia de Certeau concorda com o que fala Nelson Ferreira do Santos (13) a respeito das obras urbanas no Brasil. Muitas vezes não há uma preocupação em se verificar a eficácia dos postulados e estratégias dos projetos urbanísticos quando levados à prática. As atividades dos planejadores, urbanistas, técnicos e políticos geralmente se restringem aos mapas, memoriais, orçamentos, leis, e ao se transformar em linguagens físicas seus trabalhos são dados como terminados. Porém, a transição do papel para a prática se faz essencial à própria manutenção da ideia do urbanismo, uma vez que mostram as possíveis táticas e lógicas contaminadoras e cambiantes que fazem parte da heterogeneidade do espaço urbano.

Um fato que chamou atenção na área trabalhada foi a dos tabuleiros de xadrez nos bancos existentes na intercessão do Ponto de Cem Réis com a Rua Duque de Caxias. Esse local ao entardecer concentra jogos de carta, damas, etc. Percebeu-se que em alguns dos bancos havia tabuleiros pintados com tinta preta, o que facilitava a organização dos jogadores que não contavam com as peças tradicionais do jogo. Durante uma conversa com os jogadores, descobrimos que esses jogos são treinos para os campeonatos que ocorriam na Lagoa, mas que foram proibidos e agora ocorrem no Ponto de Cem Reis. “Seu Pipoca”, senhor aposentado que organiza os campeonatos, nos contou que a mudança de local incitou um dos jogadores, conhecido do secretário de esportes, a solicitar tabuleiros fixos nos bancos. O resultado pode ser visto nas figuras abaixo.

Bancos com cerâmica que imita tabuleiro em 2014
Foto Marcela Dimenstein

Tabuleiros pintados nos bancos em 2013
Foto Marcela Dimenstein

As táticas desviantes produzidas pelos idosos nos espaços trabalhados são chamadas de contra usos, segundo Leite (14). Foi possível identificar contra usos relacionados às mais diversas atividades, que serão mostradas a seguir.

 

Apropriação do espaço para descanso
Foto Marcela Dimenstein

Apropriação do espaço para trabalho
Foto Marcela Dimenstein

Idoso lavando as mãos em canteiro de plantas
Foto Marcela Dimenstein

Idoso urinando no local do busto de Vidal de Negreiros
Foto Marcela Dimenstein

Considerações finais

Neste trabalho pudemos encontrar uma área central que passou por muitas mudanças ao longo das últimas décadas e mesmo com as diversas transformações na dinâmica da área, ainda é possível ver uma população idosa que utiliza o centro como lugar de lazer, moradia, circulação e trabalho, se conformando como importantes atores da área.

Esse grande número de idosos encontrado incitou diversos questionamentos acerca da inclusão dos diretos dessa população nas recentes obras e transformações urbanas. O que encontramos foi um espaço recém requalificado que apesar das visíveis melhorias de piso, bancos, postes, arborização, dentre outros, negligenciaram uma série de exigências qualitativas do espaço referentes às atividades simples do cotidiano como andar, sentar, ficar, pé e etc. Além dos elementos básicos condizentes com um espaço bem equipado e acessível, outros aspectos relativos tanto às edificações no entorno imediato – que em muitos casos não sofreu nenhuma melhoria – quanto às atividades cotidianas e públicos frequentador deveriam ter sido priorizadas na reforma.

Dessa forma, o que vimos foram configurações espaciais planejadas para atrair a população para grandes eventos e infraestrutura urbana que não contempla prioritariamente o público idoso ou mesmo o corpo mais frágil, o colocando em situação de desvantagem e reforçando suas deficiências, levando-os muitas vezes a suprir suas necessidades contrariando usos pré-estabelecidos no espaço.

Acredita-se que com este artigo é possível ter um maior conhecimento sobre o papel importante dos idosos no dia a dia das cidades, bem como as suas relações com o tipo de espaço urbano que está sendo construído pelas atuais gestões públicas, a qualidade urbana resultante nesses espaços e como devemos intervir nele.

Por fim, as observações expostas aqui mostram que as pessoas, suas atividades e os espaços onde elas se realizam precisam de atenção durante o processo projetual. A existência de espaços desertos em uma área tão vital da cidade indica que algumas mudanças precisam ser feitas para melhor se adequarem às necessidades da população. Os espaços descritos acima deveriam oferecer uma excelência de qualidade, entretanto, mesmo com as inúmeras deficiências projetuais e físicas que demostram, ainda atraem muitas pessoas, o que reforça a seguinte frase de Jan Gehl (15): “La vida em los edifícios y entre los edifícios parece considerarse, em casi todas las circunstancias, más essencial y relevante que los propios espacios y edifícios”.

notas

1
CERTEAU, Michel. A Invenção do Cotidiano. Petrópolis, Vozes, 1990.

2
BRASIL. Lei Federal n° 10.741, de 01 de outubro de 2003. Dispõe sobre o Estatuto do Idoso e dá outras providências. Diário Oficial [da] República Federativa do Brasil, Brasília, DF, 01 out. 2003.

3
IBGE, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatistica, 2007. Apud CUNHA, Marcella Viana Portella de Oliveira. Acessibilidade Física do Idoso ao Espaço Público: estudo e proposições projetuais em Joao Pessoa-PB. Dissertação de mestrado em Arquitetura e Urbanismo. Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa, 2011.

4
IBGE, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 2010.

5
CORREA, Mariele Rodrigues. Cartografias do envelhecimento na contemporaneidade: velhice e terceira idade. São Paulo: Cultura Acadêmica, 2009.

6
DIMENSTEIN, Marcela; BARROS, Amaralyna; ANDRADE, Patrícia A. Relações espaço público x privado: o caso do Ponto de Cem Réis. In: Anais IV Seminário Internacional Urbicentros: invisibilidades e contradições do urbano. João Pessoa: Editora Universitária, 2013.

7
MOTTA, Alda Britto. Envelhecimento e Sentimento do Corpo. In: MINAYO, M. C. S.; COIMBRA JR., C. E. A. (orgs.). Antropologia, Saúde e Envelhecimento. Rio de Janeiro: Editora FIOCRUZ, 2002.

8
CORREA, Mariele. Op. cit.

9
MOTTA, Alda Britto. Op. cit.

10
DEBERT, Guita. A antropologia e o estudo dos grupos e das categorias de idade. In: BARROS, Myriam Moraes Lins de. (org.). Velhice ou terceira idade? Rio de Janeiro, Editora FGV, 2007.

11

LEITE, Rogério Proença. Contra-Usos da Cidade. Campinas, Ed. EdUFS, 2007.

12
CERTEAU, Michel. Op. cit.

13
SANTOS, Carlos Nelson F. dos (coord). Quando a rua vira casa. São Paulo, ed. Projeto, 1985.

14
LEITE, Rogério Proença. Op. cit.

15
GEHL, Jan. La humanización del espacio urbano. La vida social entre los edificios. Barcelona, Editorial Reverté, 2009.

sobre as autoras

Marcela Dimenstein é arquiteta e Urbanista pela Universidade Federal da Paraíba, mestre em Arquitetura e Urbanismo pelo Programa de Pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal da Paraíba.

Jovanka Baracuhy Cavalcanti Scocuglia é docente e pesquisadora do departamento de Arquitetura e Urbanismo e do Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo – PPGAU/UFPB. Doutora em Sociologia/UFPE. Possui publicações em revistas nacionais especializadas, pesquisas e livros na área de Arquitetura e Urbanismo, Sociologia Urbana e Patrimônio Cultural.

 

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