LA CIUDAD NEGOCIO

DELGADO, Manuel. La ciudad mentirosa. Fraude y miséria del ‘Modelo Barcelona’. Barcelona: Catarata, 2010.

Barcelona é o exemplo de uma cidade assediada na atualidade pelo capitalismo financeiro internacional que enxerga o território como fonte de enriquecimento e como articulador de consumo. Assim com Barcelona, muitas cidades do mundo estão dentro deste contexto geral que envolve os grandes processos de transformação urbana. As cidades, que são objetos de requalificação a serviço dos interesses das grandes corporações mundiais, convergem para uma realidade caracterizada pela expulsão dos moradores. São como diz o autor: máquinas de excluir e expulsar os habitantes.

O que se observa no caso de Barcelona é a maneira com que as dinâmicas globalizadoras vão alcançando maior refinamento no que concerne a apresentação do produto. Esta apresentação é marcada por um cuidado extraordinário e é exposta dentro de um cenário de uma falsa vitória sobre as patologias urbanas.

A preocupação com a impressão e com a imagem transmitida é a chave do êxito na hora de vender. A imagem comunicada é de uma cidade que não existe, uma vitrine que apresenta situações bem distintas daquelas que as políticas de promoção e campanhas de publicidade mostram na verdade.

Boa parcela do urbanismo moderno sempre manteve a intenção de construir uma cidade perfeita e, não diferente, Barcelona buscou e busca, mesmo que por caminhos tortuosos, ser o modelo de transformação urbana, modelo de melhora da atratividade e da posição estratégica da cidade, modelo de projeto utópico nas mãos de planejadores que acreditavam que iriam se superar e fazer desaparecer os conflitos e as desigualdades. Barcelona é o exemplo da intervenção tecnocrática e de uma autocracia centralizadora.

A maioria das políticas de Barcelona haviam sido guiadas por uma vontade de modelar a cidade. O objetivo não era apenas para fazê-la um modelo, mas fazê-la modeladora, fazê-la referência e consolidá-la como paradigma de crescimento, de organização e de harmonia. Seria a imagem ideal de uma cidade que havia realizado o sonho de atingir uma harmonia entre a perfeição do plano desenhado e as relações sociais. Assim Barcelona estaria na moda e despertaria a fascinação dos turistas de todas as partes.

Barcelona também se mostra com características típicas de uma cidade tardio-capitalista e como modelo de desordem urbana. Este outro lado revela a destruição de bairros inteiros que haviam sido considerados obsoletos, mostra o aumento dos níveis de miséria e a exclusão que contrasta com todas as imagens deslumbrantes destinadas ao público.

Dentro deste contexto dicotômico, percebemos Barcelona como ela realmente é hoje: um modelo de uma cidade, urbe convertida numa enorme cadeia de produção de sonhos e simulacros que fazem de sua própria mentira sua principal indústria. Uma cidade que parece empenhada em regular e codificar as realidades urbanas.

A administração na maioria das vezes tem se posicionado de forma espetacularizadora e especuladora, o que a afasta do que tende a ser sua missão de criar, de gerir e manter em bom estado os palcos da vida democrática. Barcelona é mais como um projeto de mercado de que um projeto de convivência.

A política de desenho urbano de Barcelona prefigurada em 1953, fortemente tecnocrática e dirigista, foi revista em 1964 de uma forma definitiva. A consciência de que Barcelona estava se convertendo em uma cidade de serviços e em cenário para consumo de massas já determina as grandes linhas urbanísticas inscritas no período anterior a restauração da democracia formal.

Grandes lotes do território industrial, que haviam sido habitados por setores populares, foram transformados pela nova economia para atividades associadas aos negócios e as tecnologias de ponta ou foram convertidos em bairros para classes médias ou altas.

Barcelona também presenciou o domínio do automóvel e dos seus elementos como as autopistas que permeavam até mesmo o coração da cidade, os cinturões e os estacionamentos que foram construídos em toda a cidade inclusive no “centro histórico”/”casco antigo”.

Em meados de 1960, ocorreu a autorização para modificação do gabarito favorecendo ou aumentando os gabaritos das edificações no centro histórico. Este fato proporcionou a proliferação de uma tipologia (arranha-céus) que já havia sido considerada insustentável e anti-urbana para aquela área.

Fica bem explicito dentro dos processos de transformação ocorridos em Barcelona o contraste de uma cidade que exaltava publicamente suas ambições em matéria de infraestrutura e uma outra representada pelas classes populares e seus bairros, erguidos de outra forma com materiais fracos e sobre terrenos instáveis. É a exposição de uma cidade com duas faces: a Barcelona modelo que se enaltece e uma Barcelona real, com seus problemas de ordem social, política e estética.

Uma Exposição Universal foi celebrada em Barcelona no ano de 1982 e teve como defesa argumentos bem parecidos com os do Projeto Olímpico e do Fórum ocorrido em 2004. Entre eles a exposição previa ser o instrumento adequado para impulsionar a expansão de Barcelona e promover a sua reforma interior de acordo com as exigências que concernem a seu crescimento e que permeia a profunda transformação social.

A atual Barcelona partiu da determinação de por a cidade à disposição dos interesses do capitalismo imobiliário e financeiro internacional e terminou perdendo a dimensão social do projeto em favor do assentamento dos setores mais privilegiados e de novas classes igualmente privilegiadas.

Uma etapa se desenvolveu desde a restauração parlamentar a designação de Barcelona como capital olímpica em 1987, foi um momento em que o cambio político abriu perspectivas de realização das ilusões da democracia. Este ambiente se traduziu por espaços públicos criativos, equipamentos civis e culturais.

A Barcelona como cidade olímpica foi o ponto de partida para as extraordinárias operações urbanísticas e de engenharia que implicaram na entrada em cena das grandes operações imobiliárias. Contribuições coletivas em todos os níveis se uniram na perspectiva de ver realizado o sonho olímpico. A realidade olímpica, dispositivo puramente retórico ao serviço da terceirização e tematização de Barcelona, foi bastante atuante na convenção desta cidade em espaço de consumo.

Depois dos jogos olímpicos em 1992, ocorreu uma crise em decorrência das dívidas municipais contraídas e muitos projetos inacabados.

Após 1992, destaca-se outra fase, mais pragmática e associada em grande parte a um projeto global da cidade. Os grandes proporcionadores do urbanismo de Barcelona neste momento não os dirigentes políticos da cidade, mas, grupos empresariais, grandes bancos e pessoas físicas.

Em meados de 2000 estavam ativas lutas em defesa dos espaços carregados de valores sentimentais e arquitetônicos e contra atuações municipais que beneficiavam interesses privados.

O fórum das culturas de 2004 reproduziu um dispositivo destinado a converter a cidade em um spot publicitário e invocou valores abstratos que foram associados ao espírito olímpico.

Entretanto, nenhuma das grandes iniciativas que haviam definido a evolução da forma urbana de Barcelona implicou em políticas de moradia social acessível. Barcelona havia sido submetida ao domínio absoluto dos planos oficiais que se havia proposto a atingir todas as partes da vida dos cidadãos exceto aquelas mais necessitadas.

As grandes declarações programáticas das autoridades e as elaborações teóricas dos arquitetos são mais uma vez desmentidas pelas práticas reais marcadas pela desigualdade, conflitose lutas sociais. Assim as invocações em favor da sustentabilidade e da qualidade ambiental contrastam com essas iniciativas destrutivas. Os parques urbanos, pulmões da cidade foram alvos da destruição pela privatização e pelas operações urbanísticas.

As realidades humanas dos bairros de Barcelona estão em pleno processo de transformação por conseqüência da inserção de novas dinâmicas demográficas em um espaço marcado por lutas, especulação imobiliária, de vigilâncias políticas e sociais, os novos assentamentos humanos provocam configurações sociais que são ao mesmo tempo velhas e novas.

Este cenário reflete as intervenções de reordenação do território destinadas a conversão de centros antigos em parques temáticos onde se encena uma pseudo-diversidade histórica e cultural características da gentrificação. Observa-se o assentamento de classes médias que instigadas pelas formas de atração para as moradias novas e reformadas em bairros antigos, buscam o reencontro da vida no bairro e dos prazeres da vida em sociedade.

Em quase todas as cidades os grandes processos de transformação urbana ocorrem acompanhados de princípios abstratos da arte, cultura estética, valores onde as políticas de promoção urbana encontram o motivo que ofereça singularidade funcional e prestigio aos que em prática são estratégias de tematização e espetacularização.

Seria tolice negar as evidentes melhoras no campo dos equipamentos e nas transformações estéticas de qualidade na paisagem urbana e não há duvida acerca da necessidade de um projeto administrativo que planeje o crescimento urbano e o proteja dos estragos de um sistema socioeconômico que se nutre da exploração e do abuso.  O que o autor critica são as atuações discriminatórias com as populações de baixa renda, com os trabalhadores e outros elementos que possam afastar os turistas e os novos proprietários que se pretendem atrair. É um processo inexorável de ilegalização da pobreza, novo ingrediente de Barcelona.

Em qualquer processo de intervenção no meio urbano, faz-se necessário respeitar, antes de tudo, as condições sociais e a realidade econômica vigente, buscar promover espaços que funcionem de maneira sustentável e procurar converter em benefícios os elementos nocivos que dominam o mundo contemporâneo.

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