USOS DA RUA

FREHSE, Fraya. Usos da rua. In: FORTUNA, Carlos e LEITE, Rogério P. (orgs). Série Cidades e Arquitectura.  Plural de Cidades: novos léxicos urbanos. Coimbra: Almedina S/A, 2009.

Trata-se de uma expressão para a qual não existe uma definição unívoca, nos estudos urbanos. Quanto aos usos das ruas, uma primeira possibilidade é associá-los às relações dos indivíduos com tais locais.

“Rua” remete passagens, becos, largos e mesmo praças fisicamente abertos, isto é, não cercados, nas cidades, e cujo acesso legal é irrestrito em qualquer horário. As urbes “modernas” caracterizam-se pela possibilidade histórica de que suas ruas sejam locais fisicamente abertos e legalmente irrestritos. Como a relação dos seres humanos com o espaço é mediada simbolicamente (Lefebvre, 2000:49), há como denominar as ruas dessas cidades lugares públicos. A noção alude a fragmentos de espaço que são socialmente significados como virtualmente “de todos”.

Os significados de “usos da rua” acarreta, em primeira instância, considerar que estão em foco os vínculos dos indivíduos com os locais das cidades modernas potencialmente mais receptivos à diversidade humana. Cabe mostrar que o uso de “usos” não é gratuito. “Usos da rua” aparece nas investigações, por um lado, com uma acepção descritiva, por outro, com uma acepção interpretativa de condutas corporais e de relacionamentos sociais nas ruas das cidades alcançadas pela modernidade.

– ABORDAGENS DESCRITIVAS

            Na bibliografia especializada, “usos da rua” são evocados em descrições mais ou menos densamente etnográficas da coexistência física e social dos pedestres nas ruas. Especificamente, a expressão é empregada para sintetizar comportamentos corporais e formas de sociabilidade ali. A noção de comportamentos corporais nas ruas, envolvem a passagem, a permanência ou o ajuntamento de indivíduos ali em ritmo regular, esporádico ou excepcional (Frehse, 2004). Às vezes “usos da rua” conotam, nas descrições, uma conjugação recorrente de comportamentos corporais e formas de sociabilidade que acaba por constituir, do ponto de vista fenomênico, aquilo que tenho chamado de atividades sociais, nesses lugares públicos (Frehse, 2005:31), por exemplo, o comércio ambulante e a mendicância.

            A vertente descritiva coexiste com uma segunda, interpretativa, embora esta não seja explicitada, são submetidos a tratamentos teórico-metodológicos que abrem espaço a teorizações e, assim, a um “conhecimento generalizador” (Fernandes, 1959:32) sobre o fenômeno social que são os usos da rua.

– ABORDAGENS INTERPRETATIVAS

       A gama de orientações teóricas se traduz em três chaves analíticas que visa converter dados da experiência em dados manipuláveis pelo raciocínio cientifico. Interação, função e contexto. Contemplados conjunta e retrospectivamente, portam dimensões semânticas que, se lhes foram incorporadas no decursos do debate acadêmico internacional do século XX, constituem referências significativas para a interpretação de condutas corporais e relacionamentos nas ruas nos estudos urbanos ainda hoje.

– CHAVE ANALÍTICA I: INTERAÇÃO

            Em termos analíticos, nas interações envolvidas nos usos da rua investigam os efeitos recíprocos que a dimensão situacional da co-presença física e/ou social dos indivíduos nesses lugares públicos acarreta para os comportamentos corporais e/ou sociabilidade deles ali.

            A reflexão faculta no mínimo duas perguntas: como interações marcadas por tal dinâmica de distâncias se espacializariam na rua? E qual sua estrutura normativa? A primeira questão foi tratada de forma pioneira por Park em sua reflexão sobre as “regiões morais”, lugares de encontro da população segundo temperamentos e gostos (1967:40-3). O autor preconiza que a mobilidade do homem individual na cidade sofre influências não apenas no transporte e de comunicação, mas de processos de segregação que estabelecem distâncias morais. É através dessas distâncias que se constituem as regiões morais.

            Goffman argumenta que a co-presença física no espaço envolve, sob o prisma da “situação”, a ocorrência de no mínimo três mecanismos normativos: a imagem      eu o indivíduo tem de si a partir da imagem que outros têm dele; a adoção de uma seqüência densamente simbólica de gestos e posturas, de cunho ritual; a transmissão corporal de mensagens sobre os sentidos das interações através do chamado “idioma corporal”, e/ou através da delimitação de territórios. No cenário luso-brasileiro, etnografias dos usos das ruas em bairros populares apóiam-se nas distâncias sociais simmelianas face ao “estranho”.

– CHAVE ANALÍTICA II: FUNÇÃO

            Comportamentos corporais e interações às necessidades a que respondem nas ruas, e são elas que asseguram funções a tais usos. Em 1896 Louis H. Sullivan (2008:5) afirmou que “a forma sempre segue a função”, concebendo que a arquitetura depende das “necessidades” tributárias da “lei” natural das coisas orgânicas e inorgânicas, físicas e metafísicas, humanas e super-humanas.

            As necessidades a que a forma arquitetônica deve responder passam a ser modos adequados de viver na cidade. Apenas a presença de usuários e expectadores seria suficiente para assegurar a “vida” da rua.

            No cenário brasileiro, o “microcosmo [social] real” das ruas de Jacobs perpassa etnografias dos usos que moradores fazem das ruas de seus bairros, e das concepções dos pedestres sobre o espaço urbano, em andanças pela metrópole. Nos estudos sobre os usos da rua, “estrutura” remete não tanto à combinação integrada de população, salários, atitudes, comportamentos, instituições e equipamentos urbanos, que perpassa as abordagens morfológicas, quanto a referências sociais, políticas e econômicas abrangentes em mudança.

– CHAVE ANALÍTICA III: CONTEXTO

            A interpretação envolve a vinculação analítica dos usos a contextos mais amplos. “Contexto” insinua poder mais amplo, relações de força vigentes onde se dão os usos.

            O uso – corporal – do espaço seria mediado, portanto, pelo vigor (dialético) do espaço vivido pelo “corpo vivido”, e pelas pressões do espaço concebido conforme “representações do corpo”.  Importa distinguir, nos usos, “estratégias” (cálculos das relações de força definidos pela postulação de um lugar capaz de ser circunscrito como próprio) e de “táticas” (cálculos definidos pela impossibilidade da postulação desse lugar próprio).

            Os usos da rua são indissociáveis dos processos socioeconômicos e políticos mais amplos que também os constituem. A marca dessa equação dialética é o imponderável de conflitos sociais que se insinuam pela mediação dos mais fugazes gestos, posturas e interações, nas ruas.

O QUE AS DESCRIÇÕES E INTERPRETAÇÕES REVELAM

As descrições e interpretações revelam a existência efetiva, nos estudos urbanos, de um longo debate intelectual sobre os “usos da rua”.

Marcadas por tais especificidades de cunho teórico-metodológico, as chaves analíticas remetem a dimensões dos comportamentos e interações nas ruas que são inconfundíveis entre si, por mais complementares que sejam.

Esses debates sobre usos da rua se dão através do corpo, que se move, interage e atua na rua, cumprindo ou não as suas funções, produto ou produtor de contexto.

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